segunda-feira, 18 de julho de 2011

Trabalho aqui não, moço!

Talvez você reconheça essa situação.
Estava em um elevador em um prédio de um bairro classe média alta em Salvador, Bahia onde moro. Estava lá arrumando as coisas para uma das festas que a Juventude Espírita na qual trabalho promove. Estava de saída quando entrou no elevador uma senhora, branca, muito bem vestida. Ela olhou para mim e perguntou: Você conhece alguma meina que trabalha em casa (quer dizer empregada doméstica)? Resposta: Não! Você mora aonde? Respondi: Moro no Nordeste. Porque? E ela: E não conhece ninguém que trabalhe em casa? Com cara de paisagem: Não! Mas se souber de alguém, posso indicar à senhora. Qual seu nome? Ela me disse e perguntou: Você trabalha em que casa aqui? Respondendo...: Em nenhuma... Ela, já um tanto sem graça: E o que você está fazendo aqui? Minha resposta: Vim para uma festa! Totalmente bege de vergonha, a senhora respondeu, na falta do que dizer: Se achar alguém...
A subalternidade estava escrita na minha cara. Negra e moradora de um conhecido bairro popular da cidade, só podia ser empregada domestica. Problema nenhum nisso é uma profissão digna e muito rentável dependendo da maneira como se exerce. O problema estava no que a fala dela me dizia: você  pode ser empregada domestíca. Em seu livro, Pele negra, máscaras brancas, Frantz Fanon diz, se referindo à convivência entre brancos e negros da Martinica pós- colonial "de um homem (ou mulher) exige-se uma conduta de homem; de mim, uma conduta de homem (mulher) negro (a)-ou pelo menos uma conduta de preto. Isso significa: Ponha-se no lugar que te coloquei, que muitas vezes é o lugar de subalternidade.
Essa minha fala soará para muitos requalque. É o que acontece quando falamos sobre coisas que já foram naturalizadas em nossas falas e ações. Nos acostumamos a vermos os negros em posições menos privilegiadas que os cidadãos de pele clara. E isso nos parece muito natural.
Também já fui partidária do discurso: Não discutirei isso, por que já provado cientificamente que raça não existe. Certo, mas já que vivemos em um mundo social que baseia suas construções, nas ideias de raça, gênero, classe e identidade, precisamos falar sobre essas coisas, penso eu, para corrigirmos certos comportamentos e pensamentos que temos sem ao menos notarmos.

domingo, 17 de julho de 2011

No país do futebol

Terminou hoje o Mundial Feminino de Futebol, realizado na Alemanha. A equipe vencedora foi a japonesa, que ganhou seu primeiro título em um mundial de futebol- tanto no masculino, quanto no feminino. Em segundo lugar ficaram as estadunidenses. As japonesas ainda ficaram com o título de artilheira do mundial, melhor jogadora e de fair play (jogo limpo).
A nossa seleção foi eliminada nas quartas de final pelas estadunidenses. Jogando muito bem por sinal.Sob a batuta da super craque Marta deu show enquanto esteve no Mundial. Mas foram derrotadas sobre tudo pela falta de apoio e visibilidade com a qual sofrem desde sempre.
Segundo alguns depoimentos ouvidos por mim está semana, a CBF não tem dado o devido apoio ao esporte e patrocinadores não estariam lá tão interessados em apoiar-lo na sua modalidade feminina. Razões? Não foram levantadas, mas tenho algumas hipóteses.
A despeito das recentes conquistas femininas- recentes sim, pois só votamos a 81 anos, as mulheres de classe média e alta só sairam para trabalhar de fato a partir da década de 60 do século passado ( as mulheres negras já estavam no mercado de trabalho a muito tempo como ganhadeiras, lavadeiras, doceiras e por ai vai)- futebol aqui ainda é visto como coisa de homem. Ok, quando a seleção feminina tem a oportunidade de jogar aqui, os estádios enchem, mas para os patrocinadores injetar dinheiro para mulheres jogarem futebol está ainda fora de cojitação. Talvez a teoria da complementaridade nos dê uma luz. Formulada em meados do século XIX, ela dava o espaço público ao homem e o privado à mulher. Mulheres num campo de futebol, invadindo o espaço público masculino, nem pensar!
E como atividade eminentemente masculina, no "status quo", mulher não tem habilidades para exercê-lá. Bom, o que vi me diz o contrário. E minha percepção é referendada por narradores esportivos, jogadores e técnicos de futebol, que acho que entendem bem do assunto.
Enfim, temos mais é que parabenizar essas mulheres fortes que, ignorando todas as dificuldades, nos dão belos espetáculos. E como fizemos em outros ramos profissionais considerados atividades de uso exclusivo dos homens, ocupar nosso lugar a fórceps, por que de graça e boa-vontade não vão nos dar.