Talvez você reconheça essa situação.
Estava em um elevador em um prédio de um bairro classe média alta em Salvador, Bahia onde moro. Estava lá arrumando as coisas para uma das festas que a Juventude Espírita na qual trabalho promove. Estava de saída quando entrou no elevador uma senhora, branca, muito bem vestida. Ela olhou para mim e perguntou: Você conhece alguma meina que trabalha em casa (quer dizer empregada doméstica)? Resposta: Não! Você mora aonde? Respondi: Moro no Nordeste. Porque? E ela: E não conhece ninguém que trabalhe em casa? Com cara de paisagem: Não! Mas se souber de alguém, posso indicar à senhora. Qual seu nome? Ela me disse e perguntou: Você trabalha em que casa aqui? Respondendo...: Em nenhuma... Ela, já um tanto sem graça: E o que você está fazendo aqui? Minha resposta: Vim para uma festa! Totalmente bege de vergonha, a senhora respondeu, na falta do que dizer: Se achar alguém...
A subalternidade estava escrita na minha cara. Negra e moradora de um conhecido bairro popular da cidade, só podia ser empregada domestica. Problema nenhum nisso é uma profissão digna e muito rentável dependendo da maneira como se exerce. O problema estava no que a fala dela me dizia: você só pode ser empregada domestíca. Em seu livro, Pele negra, máscaras brancas, Frantz Fanon diz, se referindo à convivência entre brancos e negros da Martinica pós- colonial "de um homem (ou mulher) exige-se uma conduta de homem; de mim, uma conduta de homem (mulher) negro (a)-ou pelo menos uma conduta de preto. Isso significa: Ponha-se no lugar que te coloquei, que muitas vezes é o lugar de subalternidade.
Essa minha fala soará para muitos requalque. É o que acontece quando falamos sobre coisas que já foram naturalizadas em nossas falas e ações. Nos acostumamos a vermos os negros em posições menos privilegiadas que os cidadãos de pele clara. E isso nos parece muito natural.
Também já fui partidária do discurso: Não discutirei isso, por que já provado cientificamente que raça não existe. Certo, mas já que vivemos em um mundo social que baseia suas construções, nas ideias de raça, gênero, classe e identidade, precisamos falar sobre essas coisas, penso eu, para corrigirmos certos comportamentos e pensamentos que temos sem ao menos notarmos.
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